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Espaço Lúdico
Um olhar sobre a infância na arte brasileira
De 5 de outubro a 12 de novembro - 9h às 19h

Percorrendo desde a retratística e as cenas de gênero (pinturas singelas de situações cotidianas), no final do século XIX, até as atitudes críticas à sociedade contemporânea, neste novo milênio, a exposição Espaço Lúdico: Um Olhar sobre a Infância na Arte Brasileira traça uma leitura, em meio às muitas possíveis, sobre o diálogo entre a arte brasileira moderna e contemporânea e o universo infantil.

Para nós, que vivemos numa era inundada por imagens, talvez seja difícil figurar-nos um tempo em que os homens não tornavam visível o seu universo cotidiano. Na Idade Média, por exemplo, imagens de crianças não apareciam em pinturas e esculturas, denotando a inexistência de um conceito específico para a infância nessa época. Entre as profundas transformações legadas pelo Renascimento, encontramos o reconhecimento da infância como fase específica do desenvolvimento humano. A partir de então, esta categoria ganhou território na história da arte ocidental, transformando-se em motivo de retratos religiosos e leigos, cenas de gênero e, por vezes, em protagonista dessa história. 

No final do século XIX, poetas e artistas passaram a ver a infância como paradigma do ato criativo. Não estavam mais interessados na reprodução do mundo infantil, mas em retornar, de certa forma, à percepção primeira, sem preconceitos, atribuída às crianças. Para alguns dos mais importantes artistas do século XX, como Klee, Kandinsky, Miró e Calder, o impulso lúdico - ou impulso para o jogo - não era apenas característico da infância. Seguindo as reflexões do poeta e filósofo romântico alemão Friedrich Schiller, esse impulso também seria jogo estético e, portanto, artístico; seria atributo do homem e, mais do que isso, o definiria enquanto ser livre e espiritual. Para boa parte dos artistas modernos, portanto, a arte tornou-se sinônimo de espaço lúdico, compartilhando com o universo infantil o território da livre expressão.

A arte que adjetivamos como contemporânea, por sua vez, mesmo na multiplicidade e com todo o ceticismo em relação às esperanças modernas, continua dialogando com a infância de variadas maneiras, seja por meio da apropriação de seus objetos e imagens, ironizando ou questionando nossa sociedade massificante, seja criando situações lúdicas, num mundo cada vez mais avesso a experiências delicadas e emocionantes.

A história da infância na arte, entretanto, não pode ser confundida com a história das próprias obras de arte. A temática desta mostra atua, portanto, apenas como um fio condutor para a leitura de obras muito diversas que, antes de tudo, devem ser vistas e compreendidas em sua singularidade e autonomia, independentemente das narrativas que, a partir delas, nos permitimos tecer.

Ileana Pradilla Cerón
Curadora


Retratos da Infância
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Pedro Américo
Retrato de Dom João IV, infante, Duque de Bragança, 1879
Óleo sobre tela
Coleção MNBA, Rio de Janeiro

Diversos conceitos de retrato de crianças e cenas de gênero, desde a segunda metade do século XIX até os anos 1940, estão reunidos nesta sala. Os trabalhos mais antigos são Infante D. João IV, Duque de Bragança, de Pedro Américo, e Estudo de cabeça, de Rodolfo Amoedo, ambos de 1879. O primeiro é uma pintura histórica que mostra o lendário príncipe regente português, conforme a solenidade exigida pelos retratos oficiais. O segundo oferece apenas o rosto de um jovem burguês, no qual ainda estão indefinidos seus traços masculinos.

O retrato mais recente, Menino, de Guignard, da década de 1940, não oferece mais nenhum ilusionismo. Ainda vinculado a um tema - se por isso entendermos a persistência de um motivo na pintura -, o aspecto lúdico neste quadro não reside propriamente na temática infantil, como acontece com as demais obras aqui apresentadas, mas na forma como o artista articula o espaço, nos elementos decorativos e no traço leve que liga a criança ao que seria o fundo da tela, e também na cor difusa que compõe sua poética.  


Alberto da Veiga Guignard
Menino, 1941
Óleo sobre madeira
Coleção Geneviève e Jean Boghici, Rio de Janeiro





Motivos Lúdicos
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Di Cavalcanti
O Palhaço, c. 1920
Aquarela e grafite sobre papel
Coleção MNBA, Rio de Janeiro




Para boa parte dos artistas modernos, sobretudo os herdeiros das correntes românticas, a nostalgia da infância e o desejo de retorno aos mundos primitivos foram maneiras de mostrar seu desencanto com a cultura ocidental e sua lógica do progresso. Temáticas como o circo, o carnaval, os sonhos e as brincadeiras infantis entraram no repertório de poetas, pintores e músicos como forma de resistência a um mundo que bania de si a alegria. 

Esta sala apresenta obras realizadas entre os anos 1920 e 1950, por Portinari, Di Cavalcanti, Djanira e Dacosta, artistas que, com freqüência, recorreram aos motivos infantis, embora com propósitos diversos. Apesar da grande distância que há entre a pintura mais narrativa de Portinari, por exemplo, e o quadro de Dacosta, em que o tema é claramente um pretexto ao exercício da construção espacial, todos se interessam pelos aspectos lúdicos do universo infantil, mesmo sem deixar de olhar para eles com certa melancolia.


Milton Da Costa
Roda, 1942
Óleo sobre tela
Coleção Gilberto Chateaubriand/MAM RJ




O lúdico como elemento construtivo
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Paulo Roberto Leal
Sem Título, 1986
Acrílica sobre papel montado e recortado
Coleção Projeto Concreto, Rio de Janeiro

Desde os anos 1950, parte importante da arte brasileira buscou se libertar das amarras narrativas ainda presentes no modernismo inicial, encontrando na abstração geométrica a possibilidade de criar linguagens universais e afirmativas do mundo industrial. Para artistas como Volpi, Carvão e Ione Saldanha, entretanto, a modernidade passava pela superação do tema na pintura, mas não significava abrir mão do caráter afetivo que impregnava a relação do pintor com seu mundo. 

As estruturas abstratas nas obras destes artistas sofreriam de certa precariedade não fosse a cor, elemento sensível, a construir e sustentar o espaço, em lugar de se basear em uma organização geométrica rigorosa. E essa cor vinha impregnada de lirismo e de memória da infância, de elementos populares e de uma fatura artesanal totalmente contrária à impessoalidade do fazer industrial. 

Nestes trabalhos, a infância não mais é vista como referência externa, mas como modelo de expressão livre e criativa. Delas se pode dizer, sem errar, que "poderiam ter sido feitas por crianças", e isto, em lugar de um fator depreciativo, se tornaria uma qualidade, ao reconhecer que o aspecto lúdico está na própria obra, não sendo apenas uma referência exterior a ela.


Arte e Literatura
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Ione Saldanha
Sem título, c. 1971
Acrílica sobre madeira
Coleção João Sartamini/MAC Niterói

O surgimento da literatura infantil remonta ao século XVII, quando o francês Charles Perrault publica Histórias de Mamãe Gansa, compilação de fábulas que pertenciam à tradição oral. Desde então, importantes artistas plásticos têm-se inspirado em contos e romances, ilustrando as narrativas ou criando obras específicas a partir de suas próprias leituras e reflexões.

Esta sala apresenta obras de artistas modernos e contemporâneos brasileiros que se interessaram ou se interessam pela literatura infantil. A variedade de linguagens destes trabalhos, da gravura à arte digital, ressalta não apenas as preferências no uso das técnicas mas, sobretudo, a singularidade das concepções de cada artista frente à arte, ao lúdico e, neste caso, à relação entre arte e literatura. Enquanto Portinari, por exemplo, ilustra com fidelidade o romance O menino de engenho, Waltercio Caldas cria uma interpretação poética para O pequeno príncipe; enquanto Arlindo Daibert interpreta o clássico Alice no país das maravilhas, Raimundo Colares elabora o Gibi, livro sem imagens nem texto e Marcio Botner e Pedro Agilson atualizam o lendário conto Chapeuzinho Vermelho, na obra Identidade. Reside, porém, nesta diversidade, o interesse no diálogo proposto por estes artistas com a literatura infantil, pois, além de permitir a análise das poéticas individuais, também oferece ampla possibilidade de pesquisa sobre o lúdico nas artes visuais.


Referências à infância na arte contemporânea
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Emil Forman
Sorriso Amarelo, 1977
caneta e lápis de cor sobre papel
coleção Família Forman, Rio de Janeiro


A diversidade das linguagens e a inexistência de fronteiras entre as produções artísticas e os objetos do mundo são características atribuídas à arte contemporânea. Quase inexiste procedimento, técnica, material ou objeto que fique de fora do universo artístico atual. 

O lugar do lúdico na arte contemporânea é também múltiplo e pode definir boa parte das obras, pois idéias envolvendo jogo, interatividade, memória, espetáculo e prazer são intrínsecas a muitos dos trabalhos. Para alguns artistas, porém, os aspectos do mundo infantil adquirem conotações críticas e, por vezes, negativas. Assim, nas obras, eles problematizam a possibilidade da experiência lúdica no mundo contemporâneo. Seja afirmativa ou crítica, a arte atual continua a criar referências ao universo infantil, como que indicando que ainda podem existir brechas para a liberdade e renovação no complexo mundo em que vivemos. 


Nelson Leirner
Made in Brasil, 2000
ferro, pelúcia e granito
cortesia Galeria Brito Cimino, SP

Cildo Meireles
Camelô, 1998
caixa e tabuleiros de madeira, mil alfinetes, mil barbatanas, boneco de látex, motor e fotografia
coleção do artista





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