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Arte Popular - Arte de
PontaQuando se pensa em arte popular não é raro virem à memória as imagens das pequenas esculturas e modelagens em barro feitas no Nordeste brasileiro. É por intermédio dessas cenas miniaturizadas, que tratam do cotidiano do homem do campo, que a maioria das pessoas toma contato com esse tipo de arte. Embora possamos reconhecer que essa produção tenha um papel fundamental na demarcação de um território específico para as artes plásticas feitas por artistas das áreas rurais, das pequenas vilas e da periferia dos grandes centros urbanos, ela não permaneceu como a única referência do que se faz no âmbito da arte popular. Hoje, a arte figurativa nordestina - reconhecida pelos inconfundíveis bonecos de barro - constitui uma, entre muitas, de suas vertentes. Distanciando-se da época em que era percebida sobretudo como brinquedo destinado às crianças ou como elemento da vida festiva e religiosa - representando os santos, as figuras dos presépios, as carrancas ou os ex-votos -, a modelagem ou a escultura desse tipo de objeto tridimensional deixa pouco a pouco de ser entendida somente como produto de um modo de vida comunitário, coletivo e relativo ao mundo agrário. Atualmente, admite-se como parte integrante do mundo da arte popular brasileira uma rica gama de produções, incluindo-se, nesse conjunto, obras que remetem a experiências altamente subjetivas e carregadas de simbolismo. Em Arte Popular - Arte de Ponta, apresentamos, ao lado das obras mais representativas da tradição figureira, outros trabalhos cujo entendimento desafia as classificações. Obras como a denominada "Lampião-Sereia", na qual seu autor, Manuel Galdino (Caruaru, PE), funde as imagens do personagem do cangaço, Lampião, com a mitológica sereia. Inspirado, ele explica: "se Lampião tivesse conhecido o mar teria abrandado sua natureza violenta". Trazemos ainda esculturas e modelagens feitas por autores do porte de Nhô Caboclo (Olinda, PE), Ulisses Pereira Chaves (Caraí, MG), GTO (Divinópolis, MG), Ana do Baú (Campo Alegre, MG), e outros trabalhos cuja autoria e procedência não podem ser estabelecidas com precisão. Indivíduos criadores que compartilham conosco suas invenções e nos fazem lembrar das virtudes da singularidade em tempos de massificação. Nesse sentido, essa exposição também revela esse aspecto menos conhecido da produção artística popular, que tem sido identificado como arte incomum, arte fantástica, arte visionária ou arte da imaginação. Nessa oportunidade, também homenageamos Guy Van de Beuque, diretor do Museu Casa do Pontal desde 1996, e filho de Jacques Van de Beuque, o criador dessa coleção, considerada atualmente a mais completa do gênero no país. Guy faleceu em janeiro de 2004, momentos antes da inauguração de uma exposição do acervo do Museu Casa do Pontal na Índia. Coordenados por ele, vínhamos - contando com o concurso de diversos colaboradores - nos dedicando ao estudo e à divulgação da arte feita pelos artistas populares, um gênero que, embora tido como dos mais belos e criativos do mundo, não é suficientemente conhecido. Embora tenhamos sido profundamente atingidos pela perda de Guy, a decisão de dar continuidade ao trabalho surgiu, justamente, do reconhecimento do grande esforço empenhado por ele no sentido de demonstrar à sociedade brasileira a importância desse tipo de empreendimento. Num país onde a distância entre ricos e pobres aprofunda-se dia a dia, o contato com essa produção lembra que a arte tem o poder fecundante de criar pontes, estabelecer relações, revelar o que não pode mais ficar esquecido. Hoje, já não é mais possível manter os olhos fechados para toda a riqueza que as camadas populares são capazes de produzir, para o pensamento e a criatividade que nascem nos meios periféricos, para a diversidade de expressões e linguagens, que, a despeito das muitas dificuldades, insistem em existir e se mostrar. Dar visibilidade a esses mundos tem sido um dos principais objetivos do Museu Casa do Pontal. Para isso, temos feito mais do que proteger, conservar e exibir um acervo expressivo, que alia diversidade e qualidade. Em nossa ação institucional, movidos pela certeza do muito que há para ser feito nesse campo, temos persistido na divulgação criteriosa dos artistas e de suas obras, na pesquisa dos principais centros de produção e na afirmação de que, também na arte popular, como em qualquer campo artístico, existem aqueles autores que por meio de suas obras criam sua diferença. Artistas que exercem seu pensamento crítico, que encontram ou inventam uma linguagem própria, original, por meio da qual se fazem presentes em seu tempo. Vivemos atualmente um raro período de interesse pelas tradições que permanecem vivas no interior do país e nas periferias das grandes cidades, sobretudo no campo das festas, da música e das manifestações populares. Para que esse entusiasmo - essa semente? - possa encontrar um solo fértil e não se perca no brilho alegre e novidadeiro do consumo, o Museu Casa do Pontal, com seu acervo e seus mais de cinqüenta anos de pesquisa, vem oferecer sua contribuição. ![]() |
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